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INCÊNDIO NA CHURRASCARIA

Vejo a foto calcinada da Churrascaria Majórica e leio um comentário de discutível gosto: a churrascaria virou churrasco.

Lembro-me da última vez que lá fui, acompanhando o saudoso Dr. Sobral Pinto, que gostava do farto churrasco servido à la carte.  Vínhamos de um longo e tedioso julgamento na 2º Auditoria do Exército em que os clientes foram condenados a penas já prescritas em concreto. Menos mal.

O incansável Modesto da Silveira, santo pagão, ficou na Auditoria para caçar os alvarás de soltura.

Com relação aos comunistas, rezava (religioso que era) o ensinamento divino que “odiava o pecado mas amava os pecadores”, desde quando defendeu, no Estado Novo do primeiro Vargas, o senador Luiz Carlos Prestes.

Irascível e ranzinza, Dr. Sobral, em privado, era um bom conversador. E torcedor do America Futebol Clube. Durante muitos ano gozei de sua convivência.

Melhor de vida, nós já morávamos numa linda casinha geminada, na rua Tobias do Amaral, ruela que começava e terminava na ladeira do Ascurra, nos altos do Cosme Velho e onde nasceu a minha filha Juliana.

Dr. Sobral morava numa casa no final da rua Pereira da Silva, em Laranjeiras. Era meu caminho natural para o centro e me ofereci a levá-lo aos julgamentos de manhã, na Justiça  Militar.

Ao tempo do jantar na Majórica, eu já mudara para Santa Teresa, em uma casa que teria sido construída pelo mestre Valentim para uma filha, e não mais dava a costumeira “carona” ao Dr. Sobral, que, no dito jantar, comentou lembrar-se de quando o bairro recebeu uma leva de moradores: “no alto do morro, se sentiam mais seguros e livres da febre amarela”. (Nessa casa, nos oitenta, fomos vítimas de duas bombas colocadas por terroristas inconformados com a “abertura” a que o regime, isolado, já se obrigava).

Desassombrado, na ditadura do primeiro Vargas, Dr. Sobral requereu que fosse o preso beneficiado pela lei de proteção aos animais: Harry Berger viveu em rigorosa incomunicabilidade, em um cubículo de 2m x  1,5m, no vão da escada da Policia Central, incomunicabilidade que não poupou o senador Luiz Carlos Prestes. Há vários registros da luta do Dr. Sobral em defesa do altivo Luiz Carlos Prestes. No jantar, contei que tinha pegado uma “carona” na defesa que ele fizera, no mesmo Tribunal de Segurança Nacional, do Harry Berger, e, requeri ao Conselho de Justiça da Auditoria Militar, fosse estendida a um cliente, velho e negro, a lei do II Reinado que beneficiou os escravos sexagenários. Dr. Sobral gostou do remoque.

Também lembrei a defesa mais curta, contundente e comovente que alguém sustentara em julgamento militar. Dr. Sobral defendia, na Auditoria do Exército, em São Paulo, Anita Prestes, filha dileta do Senador e da mártir Olga Benário, que ninguém ignorava ter sido executada pelos nazistas na câmara de gás em Bernburg, em 1942. Anita nascera em um campo de concentração. Por minha vez, eu defendia Lindolfo Silva, presidente da CONTAG, então na clandestinidade. Dr. Sobral assoma a tribuna e limita sua defesa a dizer, em alto e bom tom: “Egrégio Conselho, esta menina nasceu presa”. E mais não disse. Não há como descrever o impacto da simples oração do Dr. Sobral.

Só voltaria a vê-lo no palanque do comício monstro pelas diretas, na Cinelândia.

A voz firme do velho advogado, sempre de terno preto, gravata preta, colete e chapéu da mesma cor, fizesse calor ou não, levou a multidão ao delírio ao dizer simplesmente:

“Todo poder emana do povo.”

Não haverá incêndio capaz de apagar na memória dos tempos o nome do brasileiro Heráclito Fontoura Sobral Pinto.

 

Marcello Augusto Diniz Cerqueira é advogado, ex-Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, ex-Consultor do Ministério da Justiça, ex-Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), ex-Procurador da Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro.